A aprovação da PEC 221/2019 pela Câmara dos Deputados, que propõe a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais com dois dias de repouso, gera debates intensos sobre a viabilidade operacional na construção civil e no mercado de intermediação imobiliária. Com uma transição gradual prevista para ocorrer após a promulgação, o setor enfrenta o desafio de equilibrar a nova realidade trabalhista com a necessidade de manter a produtividade em canteiros de obras e a eficiência no atendimento ao cliente, evitando aumentos expressivos nos custos operacionais e no preço final dos imóveis.
Desafios para a construção civil e incorporação
O setor de construção civil é apontado como um dos mais impactados pela mudança na jornada. Diferente de outros segmentos, a atividade de canteiro é essencialmente presencial e intensiva em mão de obra, o que limita a automação imediata de processos como concretagem e acabamento. Estimativas da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) indicam que a redução da carga horária pode elevar o custo da mão de obra em até 15%.
Esse cenário impõe um desafio direto para a Habitação popular, onde o custo com pessoal representa cerca de 60% do valor total da obra. O aumento nos gastos pode pressionar as margens das incorporadoras e impactar o preço final das unidades, exigindo uma revisão estratégica na gestão de cronogramas. Para mitigar esses efeitos, o setor busca o reconhecimento da construção como atividade intensiva em mão de obra, visando regimes de transição diferenciados e incentivos à industrialização e pré-fabricação.
Impacto na intermediação e no mercado imobiliário
No mercado secundário, que engloba a venda, locação e administração de imóveis, o impacto da nova jornada tende a ser mais heterogêneo. A digitalização das operações, com o uso crescente de CRM, inteligência artificial e assinatura digital, permite que o atendimento ao cliente ocorra de forma mais flexível. Muitos corretores atuam como autônomos, o que reduz a dependência do vínculo celetista tradicional.
Apesar disso, imobiliárias que mantêm equipes administrativas e de vistoria em regime CLT precisarão adaptar suas escalas. A recomendação para gestores é a implementação de plantões em escala 5×2 com folgas rotativas, garantindo a continuidade do atendimento sem descaracterizar a natureza do trabalho. A adaptação tecnológica é um diferencial competitivo para quem busca otimizar processos, similar ao que ocorre em outros segmentos do mercado, como na gestão de locação de curta temporada.
Estratégias para o setor imobiliário
Para os empresários do setor, o foco deve ser a participação ativa nas discussões legislativas no Senado. O objetivo é propor ajustes técnicos que considerem as particularidades da construção e das pequenas empresas, evitando que a transição para a jornada de 40 horas comprometa a viabilidade de novos empreendimentos. A negociação coletiva e o uso inteligente do banco de horas surgem como ferramentas fundamentais para absorver a curva de transição.
Além disso, a profissionalização do atendimento digital e a estruturação cuidadosa dos contratos de trabalho são essenciais para evitar riscos regulatórios. O setor imobiliário, que já lida com desafios de mercado como a variação de custos em vendas de multipropriedade, precisa agora integrar a nova legislação trabalhista ao seu planejamento estratégico de longo prazo.
Fonte: Portas